A temática da homossexualidade e família é
extremamente relevante no contexto atual, no qual a configuração de “família
tradicional” vem tomando novos formatos e comportando outros olhares, assim, é
importante que criemos espaços para discussão e reflexão dessas novas
configurações. Pensando nisso, e considerando o lugar que a Psicologia ocupa no
processo de desconstrução e não estigmatização do sujeito, considera-se
essencial a participação dessa em espaços de discussão e debate.
A temática a respeito da homossexualidade, e do
grupo LGBTQ (e as inúmeras letras que possam vir a agregar-se a esse grupo,
tendo em vista as diversas variáveis que a sexualidade ou identidade de gênero
podem vir a ter), não são atuais. O tema da sexualidade, seja essa considerada
normativa na sociedade ou não, perpassa culturas, tempos e contextos. No
entanto, é inegável que na atualidade, o tema tem surgido e ganhado maior
visibilidade. As “saídas do armário” tornaram-se mais frequentes, e a mídia
passou a trazer e a tratar o tema, podendo ser encontrado em telenovelas, em
seus enredos, casos e personagens homossexuais ou, até mesmo, a questão da
identidade de gênero, como foi recentemente observado em uma telenovela de
destaque.
A representação do sujeito e do grupo LGBTQ trazida
na mídia proporciona diversos debates. Principalmente, a questão da
representatividade deste grupo em espaços de inserção e visibilidade em vários
tipos de mídia, seja impressa, televisiva ou digital, cuja potência é de
alcance nacional, possibilitando o encontro desse grupo estigmatizado com
diversos grupos sociais, provocando e movendo discussões. Em um contexto tradicionalmente protagonizado por
reforços de estereótipos sociais em relação a família considerada “tradicional”,
é de extrema relevância a presença de personagens e figuras LGBTQ no contexto
midiático, com a finalidade de estimular e proporcionar o debate e o pensar sobre
o tema em diversos segmentos e grupos sociais, mostrando que o conceito de
família extrapola a lógica heteronormativa.
Historicamente, o grupo LGBTQ foi representado
através da mídia como motivo de humor, geralmente com personagens
estigmatizados e caracterizados por estereótipos que reforcem a imagem e
representação social destes. Apesar desse fato ainda permanecer em alguns momentos,
é inegável que o modo e representação do sujeito LGBTQ mudou, sendo hoje, representado
de forma mais realista e humana. Um exemplo é o recente caso da representação
de uma personagem transexual em uma telenovela de destaque, a qual gerou
inúmeros debates e controvérsias na sociedade em relação ao tema. No entanto,
algo foi indiscutível para o grupo LGBT: a representatividade e o lugar de fala
foram indispensáveis para dar visibilidade, nesse caso, a pessoas transexuais,
mesmo que por meio da ficção. Seja para discutir o assunto entre amigos, familiares,
dentro ou fora de suas casas, identificar-se com a personagem, ou, até mesmo discordar
e desligar a televisão negando-se a aceitar a presença daquele personagem no
contexto familiar. Seja qual for a reação do espectador, a personagem,
carregada de sua representatividade estava ali, dando lugar, espaço e voz a um
grupo até então esquecido e silenciado.
O
processo de aceitação do sujeito em relação a sua sexualidade ou sua identidade
de gênero é bastante singular, assim como o de sua família. Cada sujeito tem
seu processo de reconhecimento, autoconhecimento, aceitação em relação a si e
sobre como se colocar em relação ao outro diante disto. No entanto, pouco se
discute a respeito do processo de quem recebe essa informação, isto é, a
família. Muito é discutido e debatido a respeito da visibilidade de quem fala
ao outro sobre sua sexualidade, no entanto, pouco se discute ou dá voz a quem
escuta essa informação. É importante refletir que o familiar também se encontra
inserido em um contexto social, cultural e histórico que reforça a estigmatização
deste grupo e de uma normativa de sexualidade, sendo também necessário que esse
passe pelo seu processo singular de aceitação. Ao passo que o sujeito LGBTQ
“sai do armário”, seus familiares terão de passar por todo processo de
aceitação e reconhecimento que esse passou, o qual poderá também ser lento, com
alguns obstáculos e entraves. Em alguns casos, o familiar pode também vir a
“entrar no armário”, já que, não raramente, esse esconde do outro, como
parentes, amigos, colegas, por medo, anseio, ou por não saber o que esperar,
tendo um filho/filha LGBTQ ou com identidade de gênero diferente da socialmente
imposta.
Em tempos de "cura gay" e de toda a
polêmica e desinformação que rodeiam este assunto, é de extrema importância que
os profissionais da Psicologia se posicionem ao lado do seu Código de Ética,
contra toda e qualquer opressão, preconceito, coação e violação de direitos
humanos. Ao contrário da visão conservadora e tradicional, a Psicologia escolhe
perceber o sofrimento relacionado à orientação sexual não como proveniente dela
mesmo, mas sim de todo um contexto social que, historicamente, condena modos de
vida que fujam à heteronormatividade. Portanto, a Psicologia é contra qualquer
tipo de abordagem ou terapia que se proponha a fazer reorientação sexual ou que
se recuse a perceber a dimensão social do sofrimento psíquico, afinal, é papel
do psicólogo analisar criticamente a realidade, não reforçar padrões de
adaptação dos sujeitos.
Ainda, destacamos a importância de as mães terem se
disponibilizado para se reunir e contar um pouco sobre suas experiências,
mostrando o quanto é importante as pessoas se unirem contra a LGBTQfobia, para
romper com silêncios e construir redes de resistência. Espaços de encontro,
desencontros, trocas e possibilidades de compartilhar são de extrema
relevância, para romper silêncios e construir redes de resistência, o apoio
familiar é de extrema relevância na constituição e processos de subjetivação de
qualquer sujeito. Em casos de sujeitos que passam por situações de estigma, ou
que possam ocupar um “não-lugar” social, o suporte familiar torna-se
indispensável.
Assim, familiares que estão passando por situação
similar a discutida aqui, é relevante que tenha espaços de trocas e que possa
compartilhar sobre o assunto, seja com amigos, vizinhos, parentes, ou, até
mesmo profissionais de saúde.
Lembrando que esse texto se propôs a abordar apenas
alguns aspectos da experiência LGBT dentro da família, já que, em se tratando
de um assunto tão complexo e subjetivo, não se pretende, de nenhuma forma,
esgotar o tema, pois, a única coisa constante aqui são as questões e seus
desdobramentos.

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