quarta-feira, 9 de maio de 2018

Sujeito LGBT e Família: o que a Psicologia tem a ver com isso?




A temática da homossexualidade e família é extremamente relevante no contexto atual, no qual a configuração de “família tradicional” vem tomando novos formatos e comportando outros olhares, assim, é importante que criemos espaços para discussão e reflexão dessas novas configurações. Pensando nisso, e considerando o lugar que a Psicologia ocupa no processo de desconstrução e não estigmatização do sujeito, considera-se essencial a participação dessa em espaços de discussão e debate.
A temática a respeito da homossexualidade, e do grupo LGBTQ (e as inúmeras letras que possam vir a agregar-se a esse grupo, tendo em vista as diversas variáveis que a sexualidade ou identidade de gênero podem vir a ter), não são atuais. O tema da sexualidade, seja essa considerada normativa na sociedade ou não, perpassa culturas, tempos e contextos. No entanto, é inegável que na atualidade, o tema tem surgido e ganhado maior visibilidade. As “saídas do armário” tornaram-se mais frequentes, e a mídia passou a trazer e a tratar o tema, podendo ser encontrado em telenovelas, em seus enredos, casos e personagens homossexuais ou, até mesmo, a questão da identidade de gênero, como foi recentemente observado em uma telenovela de destaque.
A representação do sujeito e do grupo LGBTQ trazida na mídia proporciona diversos debates. Principalmente, a questão da representatividade deste grupo em espaços de inserção e visibilidade em vários tipos de mídia, seja impressa, televisiva ou digital, cuja potência é de alcance nacional, possibilitando o encontro desse grupo estigmatizado com diversos grupos sociais, provocando e movendo discussões. Em um contexto tradicionalmente protagonizado por reforços de estereótipos sociais em relação a família considerada “tradicional”, é de extrema relevância a presença de personagens e figuras LGBTQ no contexto midiático, com a finalidade de estimular e proporcionar o debate e o pensar sobre o tema em diversos segmentos e grupos sociais, mostrando que o conceito de família extrapola a lógica heteronormativa. 
Historicamente, o grupo LGBTQ foi representado através da mídia como motivo de humor, geralmente com personagens estigmatizados e caracterizados por estereótipos que reforcem a imagem e representação social destes. Apesar desse fato ainda permanecer em alguns momentos, é inegável que o modo e representação do sujeito LGBTQ mudou, sendo hoje, representado de forma mais realista e humana. Um exemplo é o recente caso da representação de uma personagem transexual em uma telenovela de destaque, a qual gerou inúmeros debates e controvérsias na sociedade em relação ao tema. No entanto, algo foi indiscutível para o grupo LGBT: a representatividade e o lugar de fala foram indispensáveis para dar visibilidade, nesse caso, a pessoas transexuais, mesmo que por meio da ficção. Seja para discutir o assunto entre amigos, familiares, dentro ou fora de suas casas, identificar-se com a personagem, ou, até mesmo discordar e desligar a televisão negando-se a aceitar a presença daquele personagem no contexto familiar. Seja qual for a reação do espectador, a personagem, carregada de sua representatividade estava ali, dando lugar, espaço e voz a um grupo até então esquecido e silenciado.                       
O processo de aceitação do sujeito em relação a sua sexualidade ou sua identidade de gênero é bastante singular, assim como o de sua família. Cada sujeito tem seu processo de reconhecimento, autoconhecimento, aceitação em relação a si e sobre como se colocar em relação ao outro diante disto. No entanto, pouco se discute a respeito do processo de quem recebe essa informação, isto é, a família. Muito é discutido e debatido a respeito da visibilidade de quem fala ao outro sobre sua sexualidade, no entanto, pouco se discute ou dá voz a quem escuta essa informação. É importante refletir que o familiar também se encontra inserido em um contexto social, cultural e histórico que reforça a estigmatização deste grupo e de uma normativa de sexualidade, sendo também necessário que esse passe pelo seu processo singular de aceitação. Ao passo que o sujeito LGBTQ “sai do armário”, seus familiares terão de passar por todo processo de aceitação e reconhecimento que esse passou, o qual poderá também ser lento, com alguns obstáculos e entraves. Em alguns casos, o familiar pode também vir a “entrar no armário”, já que, não raramente, esse esconde do outro, como parentes, amigos, colegas, por medo, anseio, ou por não saber o que esperar, tendo um filho/filha LGBTQ ou com identidade de gênero diferente da socialmente imposta.
Em tempos de "cura gay" e de toda a polêmica e desinformação que rodeiam este assunto, é de extrema importância que os profissionais da Psicologia se posicionem ao lado do seu Código de Ética, contra toda e qualquer opressão, preconceito, coação e violação de direitos humanos. Ao contrário da visão conservadora e tradicional, a Psicologia escolhe perceber o sofrimento relacionado à orientação sexual não como proveniente dela mesmo, mas sim de todo um contexto social que, historicamente, condena modos de vida que fujam à heteronormatividade. Portanto, a Psicologia é contra qualquer tipo de abordagem ou terapia que se proponha a fazer reorientação sexual ou que se recuse a perceber a dimensão social do sofrimento psíquico, afinal, é papel do psicólogo analisar criticamente a realidade, não reforçar padrões de adaptação dos sujeitos.
Ainda, destacamos a importância de as mães terem se disponibilizado para se reunir e contar um pouco sobre suas experiências, mostrando o quanto é importante as pessoas se unirem contra a LGBTQfobia, para romper com silêncios e construir redes de resistência. Espaços de encontro, desencontros, trocas e possibilidades de compartilhar são de extrema relevância, para romper silêncios e construir redes de resistência, o apoio familiar é de extrema relevância na constituição e processos de subjetivação de qualquer sujeito. Em casos de sujeitos que passam por situações de estigma, ou que possam ocupar um “não-lugar” social, o suporte familiar torna-se indispensável.
Assim, familiares que estão passando por situação similar a discutida aqui, é relevante que tenha espaços de trocas e que possa compartilhar sobre o assunto, seja com amigos, vizinhos, parentes, ou, até mesmo profissionais de saúde.  
Lembrando que esse texto se propôs a abordar apenas alguns aspectos da experiência LGBT dentro da família, já que, em se tratando de um assunto tão complexo e subjetivo, não se pretende, de nenhuma forma, esgotar o tema, pois, a única coisa constante aqui são as questões e seus desdobramentos.





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