Cantarolar na rua. Falar sozinho. Ser tímido. Ou até mesmo, estar apaixonado. Se você já teve algum desses “sintomas”, em meados dos anos 80, poderia ser considerado louco pela sociedade e internado em um hospital psiquiátrico para ser tratado. Os manicômios eram lotados de histórias, vidas e sujeitos, os quais eram considerados desajustados para sua sociedade, sendo assim afastados do olhar e do convívio social. Tal ato pode ser compreendido como uma higienização social, onde todos aqueles que fugiam à normativa social eram afastados da sociedade. Moradores de rua, prostitutas, alcoolistas, homossexuais, homens e mulheres com inúmeras singularidades. Os manicômios eram lotados de sujeitos segregados de uma cultura que os considerava “doentes”, por não se enquadrarem nos padrões vigentes da época.
Felizmente, em 18 de maio de 1987, um grupo de
manifestantes de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental, lutava em nome da
saúde mental, resultando e sendo responsável pelo lema: "Por uma sociedade
sem manicômios". Uma data relativamente recente, porém, de extrema
importância, pois foi o momento que abriu possibilidades para o modo como se
faz o cuidado em saúde mental e sobre o lugar social que essa temática
ocuparia, até então invisibilizada. Conhecido como Reforma Psiquiátrica, o
movimento de desinstitucionalizar os sujeitos que viviam enclausurados, abrir
as portas e derrubar os muros dos manicômios, visando um novo modo de cuidado,
agora em liberdade.
A importância de continuar se falando sobre esse dia e esse lema, 30 anos após
esse evento, se demonstra nas práticas da Psicologia, pois ainda observamos um
preocupante processo de estigmatização e marginalização da pessoa com algum
diagnóstico de transtorno mental. Na história da Luta Antimanicomial, que se
confunde com os ideais da Reforma Psiquiátrica, o modelo dos serviços
substitutivos vem para suprir as demandas de locais abertos e comunitários de
produção de saúde para aqueles em sofrimento grave.
Em 1992, houve no Rio Grande do Sul a homologação
da lei n° 9.716, da Reforma Psiquiátrica. A Lei Paulo Delgado (Nº 10.216),
publicada em 2001, e tantas outras leis e portarias que preconizam o
atendimento em saúde mental pelo SUS, asseguram juridicamente os direitos das
pessoas em sofrimento, seja decorrente de transtornos mentais ou do uso de
álcool e outras drogas, trazendo diversos avanços na construção de uma
sociedade sem manicômios. Por outro lado, na realidade, sabe-se que a
implementação de leis não garante o seu cumprimento, e a desinstitucionalização
ainda tem um longo caminho a ser percorrido.
Em outro âmbito além da saúde pública, pode-se pensar nesse processo até mesmo
em nossa vida cotidiana, quantas vezes nos deparamos com a representação social
da loucura? O quão tabu ainda é falar sobre problemas de saúde mental,
dificuldades emocionais, como por exemplo, problemas de ansiedade, depressão e
suicídio. O imaginário social ainda tem a representação de que é errado ou
inconveniente falar sobre sentimentos e que, qualquer pessoa que esteja em
tratamento com psicólogo ou psiquiatra, certamente está "louco" ou é
uma pessoa "fraca", pois não consegue “dar conta” de seus problemas,
sozinho. Quando se trata do oposto disso: é preciso muita coragem para entrar
em processo de psicoterapia e se deparar com os seu passado e seus desejos.
São inúmeras as representações negativas associadas à saúde mental, mas,
sabe-se, que, para que as pessoas a alcancem, é preciso falar sobre ela. Aliás,
o conceito da Organização Mundial da Saúde, que define saúde “não apenas como a
ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e
social”, se mostra irreal, justamente porque esse estado é um ideal que não
pode ser alcançado, a dor, o tédio e as emoções negativas, de modo geral,
integram a vida humana. A realidade é muito menos totalizante e muito mais
trabalhosa, pois envolve saber que apesar dos momentos de sofrimento, e por
conta deles, conseguiremos chegar em um estado no qual nossas estruturas
estarão firmes o suficiente para lidar com o cotidiano. O papel da Psicologia
é, entre outros tantos possíveis, o de desmistificar e despatologizar as
queixas em saúde mental, bem como o de fazer uma reflexão crítica sobre a
sociedade e perceber que o sofrimento mental pode ser, também, engendrado por
condições sociais.
A reforma psiquiátrica não está “dada”.
Muito ainda se tem a lutar, visto que apenas a saída dos manicômios não
significa um novo cuidado e olhar ao sujeito em questão, pois o estigma e
preconceito não estavam apenas nas estruturas físicas dos manicômios, mas sim,
na ideologia e modo de olhar o sujeito, nas estruturas da sociedade. Assim,
seguir lutando contra os estigmas, dar visibilidade e lugar social (nas ruas,
nos consultórios, nas instituições, etc.) a sujeitos até então esquecidos
torna-se indispensável na luta e busca por um cuidado em saúde mental
humanizado, afinal, os manicômios mentais são muito mais difíceis de se
destruir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário